Tag Archives: preto-e-branco

Orson Welles e o Homem-Morcego

6 Dez

de Mark Millar

(artigo originalmente publicado em THE COLUMN: Issue #26, no Comic Book Resources)

Sexta-feira, 26 de setembro de 2003

O super-herói faz 64 anos de idade neste ano, mas é apenas agora (e talvez nem mesmo agora) que ele está conquistando algum respeito diante do mainstream. Crime, horror, romance e até ficção científica tocaram o coração da Academia através dos anos e foram louvados como gêneros adultos ou sofisticados de uma maneira que nós provavelmente nunca alcançaremos, e as razões para tal são duas. A primeira é que super-heróis parecem tolos de um modo que até caubóis não são. Eu os amo e sempre os amarei, mas uma pessoa normal não pode esconder o riso ao ver Ben Affleck vestido como o quinto membro bastardo do Village People. Nós também devemos encarar isso. A outra razão é que o tipo de escritores e diretores geralmente ligados a um material de super-herói no decorrer do tempo não foi exatamente da variedade “Apocalypse Now”. É claro, isso mudou recentemente com Bryan Singer, Ang Lee, David Goyer e Christopher Nolan deslizando em seus confortáveis colantes masculinos, mas pelos primeiros cinquenta anos ou mais nós tivemos somente interesseiros no comando desses projetos, com nada melhor do que uma ocasional pausa em um projeto estagnado.

Contudo, as coisas poderiam ter sido muito diferentes se as circunstâncias estivessem um pouco mais a nosso favor logo depois da guerra. O conceito embrionário de super-herói não tinha nem dez anos quando o, possivelmente, mais ilustre diretor de seu tempo, Orson Welles, considerou seriamente realizar um filme do Batman, que chegou até mesmo a ter designs de produção, um rascunho de roteiro e algumas fotografias de casting apresentando vários amigos e colegas em protótipos do que poderia eventualmente se tornar os figurinos finais. Um amigo meu chamado Lionel Hutton, crítico cinematográfico e respeitado historiador de filmes, ganhou acesso irrestrito à propriedade de Welles como parte de uma pesquisa para sua biografia (disponível na próxima Páscoa) e chegou até esses surpreendentes fatos em uma gigantesca pilha de recortes e notas que outras pessoas nunca se incomodaram em reportar. Isso tudo remonta à completa irrelevância dos quadrinhos na arte popular e do completo desdém pelo assunto mencionado anteriormente. O fato de que Orson Welles contemplava fazer um filme do Batman em 1946 é ao mesmo tempo glorioso e fascinante para pessoas como eu, mas embaraçoso e crasso para aficionados por Welles.

Não é segredo que Orson Welles nutria uma paixão pelos pulps, tendo dublado “O Sombra” no rádio e concebido a notória falcatrua de “A Guerra dos Mundos”, mas é menos conhecido o seu amor pelos quadrinhos, alimentado até sua morte em 1985. Algo especialmente chocante é que sua apreciação pelo meio não era segredo, e ele até escreveu um artigo para o The Village Voice em 1973, assombrado por conta da revista Lanterna Verde/Arqueiro Verde de Denny O’Neil e Neal Adams (A Verdadeira Contra-Cultura Vive Aqui), e assistiu, sem alarde, uma das primeiras convenções de quadrinhos de Nova York, organizada por Phil Seuling. Não é, todavia, um acidente seus acólitos esnobes negligenciarem esses fatos, mas o vasto tomo de Hutton explora esse aspecto do personagem em grandes detalhes e eu tive sorte o suficiente para ganhar um rascunho e apresentá-lo nesta coluna, a qual Hutton por acaso aprecia. O diário de Welles é dotado de referências ocasionais a obras que lia naquele momento e à sua euforia particular no final dos anos 60 e começo dos 70 pela nova onda de roteiristas e artistas, que trouxeram certa respeitabilidade a esse meio ao qual ele tanto se afeiçoava. Contudo, o miolo do livro é recheado de detalhes de sua proposta para o filme do Batman e dos oito meses que dedicou à sua pré-produção após o sucesso de “Jane Eyre” e “O Estrangeiro”.

Os encontros com a National Comics (que mais tarde se tornou a DC) para discutir o projeto Batman tiveram início aproximadamente em 1944, mas o trabalho de Welles não começou a sério até “O Estrangeiro” ficar pronto, em 1946, e ele mergulhar em seus planos. Reunindo muitos dos seus velhos amigos e colegas de “Cidadão Kane”, ele propôs “uma experiência cinemática, um caleidoscópio de heroísmo e pesadelos e imagens nunca antes vistas, salvo no subconsciente de Goya ou até do próprio Hawksmoor.” Welles planejou que o seu Batman fosse um psicodrama adulto, mas combinado com o que ele descrevia como “a excitação dos folhetins das manhãs de sábado, provendo uma respeitável combinação e todo um novo estilo de direção cinética contrariando tudo até então tentado no cinema americano.” Muitos dos desenhos de produção que ele encomendou de Greg Tolland estão nas notas e eles dá um arrepio na espinha só de vê-los. Infelizmente, eu não tenho permissão para usar os mais elaborados aqui, mas eles estarão disponíveis no livro junto ao tratamento de trinta e seis páginas para o filme que abre com as mortes de Thomas e Mary Wayne (por que Mary eu não faço ideia) e termina com o Batman desmascarado e lutando por sua vida contra o Coringa, o Charada, Duas-Caras e a Mulher-Gato numa prisão da qual eles assumiram o controle.

O real deleite para mim foram as notas de casting e as cartas de confirmação dos próprios atores – como George Raft aceitando o papel de Duas-Caras (após a recusa de Bogart), James Cagney como o Charada, Basil Rathbone como o Coringa e a ex-amante de Welles Marlene Dietrich como uma incrivelmente exótica Mulher-Gato com o mesmo passado sadio que Miller deu à personagem quarenta anos depois em “Batman: Ano Um”. Robin foi completamente ausentado do filme, mas o casting do Batman foi a maior razão para a paralização da produção e sua consequente consignação aos livros de história. Welles queria pôr a si mesmo nos papéis de Batman e Bruce Wayne, mas o estúdio queria seguir com um protagonista mais tradicional, como Gregory Peck. Peck concordou e foi declaradamente fotografado numa fantasia improvisada para sua participação durante uma pausa nas filmagens de “Virtude Selvagem” e do clássico “Duelo ao Sol”. Welles, no entanto, ficou enraivecido com a decisão. Apesar de sua amizade com Peck, ele sentiu que esse casting iria comprometer completamente sua visão e ficou especialmente furioso com a sugestão do estúdio de que ele deveria substituir Rathbone como o Coringa se ele quisesse realmente ter uma participação no filme. As conversas acabaram abruptamente, Welles se retirou de todo o acordo e se voltou completamente para “A Dama de Shangai” e o longa-metragem de “Macbeth” que ele estava preparando há algum tempo.

A tragédia para os cinéfilos é que, assim como a proposta de Welles para uma adaptação de “O Coração das Trevas” de Conrad, o mundo não pôde assistir a uma película do Batman até o filme camp de 1966, com Adam West. A tragédia para os aficionados em quadrinhos é que nossa maior aposta em respeitabilidade, quando o gênero era tão jovem que as pessoas não faziam ideia de quem nós éramos ainda, não aconteceu por conta de um argumento sobre algo tão pequeno e trivial como o casting. O filme poderia ter sido um desastre, é impossível dizer, mas as notas de produção, o tratamento e o rascunho que eu estive lendo nas últimas duas semanas me fizeram imaginar que isso poderia ter redefinido o cinema. Essa poderia ter sido a obra-prima de Welles e, quem sabe, e poderia ter lançado o renascimento dos super-heróis pelo qual nós estamos passando no momento com elenco e diretores de qualidade duas ou três gerações antes. John Ford seguindo “O Bat-Man” com um filme do “Capitão América”? Cary Grant e Katherine Hepburn como Clark Kent e Lois Lane? Em alguma realidade estranha e paralela essas coisas são DVDs acumulando poeira em nossas estantes e Clint Eastwood deseja que algum estúdio dê ao seu engraçado, velho “Os Imperdoáveis” meia chance na próxima reunião a definir o passo seguinte.

THE COLUMN retornará em algumas semanas.

Anúncios

Tonight | Crítica

2 Nov

Tonight: Franz FerdinandSe há algo a ser reconhecido por qualquer bom apreciador de música, é o fato de que muitas bandas novas e talentosas surgiram no Reino Unido entre a década de 2000 e agora. Algumas, como o Muse, iniciaram carreira bem antes disso, mas alcançaram o estrelato apenas no  novo milênio e hoje são especialistas em colecionar façanhas – recentemente, o grupo foi eleito como a Melhor Banda do Mundo pela revista Q. Outras, como o Bloc Party, o Arctic Monkeys e o Franz Ferdinand, despontaram somente neste século. E com relação ao último nome, é gratificante reconhecer que, em três álbuns lançados, tivemos três grandes obras.

O primeiro trabalho da banda escocesa – que toma seu nome emprestado do príncipe austro-húngaro cujo assassinato foi o estopim para a 1ª Guerra Mundial – constituiu-se em um estrondoso sucesso de público e crítica; Franz Ferdinand, de 2004, conquistou o prêmio de Álbum do Ano da revista britânica NME. O segundo álbum, You Could Have It So Much Better, de 2005, repetiu a fórmula da primeira obra, mas mostrou uma notável, embora nem minimamente prejudicial, queda de qualidade.

Foi só depois de um período sabático de quatro anos que os rapazes de Glasgow retornaram para chacoalhar a cena indie com o ótimo Tonight (2009). Aqui, Alex Kapranos e cia. deixaram de lado o som marcado por guitarras, baixos e refrões viciantes, a fim de imprimir batidas mais próximas da música eletrônica, adotando uma sonoridade orgânica. A procura por renovação e inovação é tamanha, que os membros da banda chegaram inclusive a utilizar ossos humanos na percussão. Se por um lado na produção de 2005, a música robótica do Kraftwerk lhes serviu de inspiração sonora e visual, neste trabalho o dubstep e o house se mostraram muito presentes. Apesar disso, o Franz também não abandona de todo o sentimentalismo até então presente em muitas de suas músicas. O ímpeto dançante das composições também não se perde; pelo contrário, se intensifica.

Já na primeira faixa de Tonight, tomamos conhecimento dos aspectos norteadores do disco. Em Ulysses, não só a banda inicia o uso do sintetizador, como também nos apresenta a temática deste que é um álbum conceitual. Ulysses é o nome do protagonista da “história” contada, um tanto metaforicamente, através desta e de outras faixas. E qual é a história? Ulysses e seus amigos resolvem sair para curtir uma noite de excessos e situações extravagantes, e o álbum acompanha desde os preparativos da empreitada até sua realização. Trata-se de uma espécie de Se Beber, Não Case! misturado a uma estética preto-e-branco. A capa do disco, por si só, já entrega um aperitivo do que será essa noite em seu auge.

O desfecho dessa história, se há algum, naturalmente deverá se encontrar nas duas últimas faixas, Dream Again e Katherine Kiss Me. São músicas mais sentimentais e oníricas e, enquanto a primeira imprime com perfeição a atmosfera de um sonho, a segunda soa repetitiva – não exatamente por trazer de volta trechos da excelente No You Girls -, mas fecha bem o trabalho.

Turn It On é rápida, mas funciona no intuito de divertir. Send Him Away não é ruim, nem realmente boa; diminui sobremaneira o ritmo colocado pelas três primeiras faixas. Twilight Omens, a número 5, e Live Alone, a número 8, são músicas menos alegres. No caso de Live Alone, a composição é melancólica, sem ser depressiva, no entanto. Isso faz bem ao disco.

Bite Hard e What She Came For são as faixas que mais se aproximam do Franz Ferdinand de tempos atrás, mas ainda não são totalmente iguais a Michael (2004) ou You Could Have It So Much Better (do álbum homônimo). As duas possuem arranjos concisos e são agitadas de igual modo, extremamente funcionais em seu intuito.

Nada pode ser dito sobre a letra de Can’t Stop Feeling, mas seu ritmo não é empolgante, por ser desacelerado e ainda assim pretender ser dançante. E, finalmente, surge a número 10, a psicodélica Lucid Dreams e sua batida saturada de sintetizadores que explodem na cabeça do ouvinte de forma abusiva nos 4 primeiros minutos, algo ainda mais incisivo nos 4 últimos; é uma das melhores coisas deste álbum, senão a melhor.

Os 43 minutos de Tonight provam que, mesmo tendo uma base bastante característica e um público já acostumado com seu trabalho, o Franz Ferdinand pode ousar e surpreender a todos com uma peça única e eficaz, ultrapassando as barreiras do rock alternativo e beirando o experimental. É verdade que alguns pequenos deslizes foram cometidos, mas isso não atrapalha nem o andamento, nem o aproveitamento deste que já é um grande disco, um dos melhores da carreira da banda e uma pérola a ser amada por indies e não-indies.

A Outra História Americana | Crítica

2 Nov

A bandeira dos EUA é tida, por sua população, como um símbolo de liberdade e igualdade. Certamente a Constituição desse país sofreu uma forte influência dos ideais iluministas franceses e, tal qual a Revolução de 1789 para esse povo, a Guerra da Secessão representa para os norte-americanos um marco que divide a história do país em dois momentos, um de repressão e escravidão e outro de liberdade e progresso. Há de se perceber, no entanto, uma ligeira deturpação da qualidade de “norte-americano”. Ora, canadenses e mexicanos também são norte-americanos. Quando os estadunidenses se autoproclamam “americanos”, eles se lembram de que cubanos, haitianos, argentinos e nós, brasileiros, são, de fato, “americanos” também?

Nota-se aí uma interessante construção nacionalista, ignorando aspectos geográficos e culturais. Mas a questão não é essa; não totalmente. O patriotismo exacerbado, aliado a uma crítica situação econômica, pode gerar – e, como a história nos ensina, certamente gerará – racismo, xenofobia e homofobia. E esse é o principal tema do longa-metragem A Outra História Americana (American History X, EUA, 1998), do estreante cineasta Tony Kaye.

A história apresentada segue o estudante Daniel Vinyard (Edward Furlong, o John Connor de O Exterminador do Futuro 2), incumbido da tarefa de escrever uma redação – nomeada American History X – sobre os fatos que decorreram na prisão de seu irmão, Derek (Edward Norton, de O Ilusionista e O Incrível Hulk) e como o fato influenciou em sua própria vida. Derek – líder de uma gangue de skinheads da qual seu irmão está prestes a fazer parte -, preso pelo assassinato de dois negros, é solto no dia em que Danny recebe a tarefa. O garoto, então, logo descobrirá como seu irmão mudou na prisão e como isso mudará sua vida e a de toda a família.

Em produções sobre o nazismo, há três modos identificáveis de se tratar a história: o melodrama, geralmente denunciando o horror do Holocausto e mostrando ao mundo suas vítimas, cujo maior representante é, sem dúvida, o multi-oscarizado A lista de Schindler, de Steven Spielberg; o longa de guerra, focado nas batalhas e no absurdo do conflito armado, como O Resgate do Soldado Ryan (também de Spielberg e também vencedor de Oscar), ou Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick – apesar deste último seguir uma linha muito mais existencialista; e o suspense político, analisando situações dos bastidores da 2ª Guerra Mundial, como o intrigante Operação Valquíria, de Bryan Singer (X-Men, Superman – O Retorno). Em A Outra História Americana, somos apresentados a um drama bem mais incisivo e menos choroso, a uma guerra silenciosa e menor, que ocorre todos os dias nos subúrbios de muitos países, e a um suspense capaz de discutir política sem abandonar o cenário do combate físico. Trata-se de um uma reunião de todos esses estilos, resultando em algo nem um pouco parecido – a começar pelo tempo da ação, os dias atuais -, mas plenamente inspirado neles.

Em 118 minutos de película, Kaye – também diretor de fotografia do filme – mostra ao público como é possível aliar roteiro e imagem para a construção de uma obra audiovisual abarrotada de simbolismos e detalhes mínimos. E nesse aspecto, a montagem de Jerry Greenberg acaba se estabelecendo como um dos pontos fortes do longa, apesar de ter sido contratado para o cargo após um conturbado processo de filmagens. Sim, conturbado, pois Kaye e os produtores – incluindo aí Norton – tiveram sérias discussões sobre os rumos do filme, e as diferenças criativas quase afundaram o projeto. Kaye, inclusive, chegou a pedir ao Director’s Guild of America a retirada de seu nome dos créditos do filme. Falhou.

Mas isso, em verdade, não atrapalha o andamento da obra. Editado como uma narrativa não-linear, com uso constante de flashbacks, A Outra História Americana se destaca também pela já citada fotografia de Kaye. Quando a ação se situa no tempo presente, temos uma película em cores, algo que muda quando conhecemos o passado das personagens – as cenas de flashback são todas em preto-e-branco, denotando seu passado obscurecido, um tempo de trevas. O colorido do presente representaria, portanto, a mudança de Derek e as transformações que estão por vir. De fato, a execução de tal ideia mostra-se eficiente em seu intento, e a iniciativa de filmar todo o filme em cores para somente mais tarde converter algumas sequências ao p&b confere à obra uma homogeneidade digna. O trabalho com as câmeras, porém, passa longe da perfeição; os takes em câmera lenta proporcionam uma incômoda quebra de ritmo, alternando longas sequências de cruas e rudes ações das personagens com momentos forçosamente dramáticos. Se a intenção era reforçar a gravidade das situações, o simbolismo acaba se mostrando verdadeiramente desnecessário.

Outro desses simbolismos (dessa vez, um realmente interessante) é localizado em um estágio mais avançado da projeção, no momento do assassinato dos dois negros. Após o ato, vemos Derek se render à polícia – que chega rápido demais e em grande volume; algo inexplicável, ou, simplesmente, um vício terrível de terrível de muitos diretores – de um modo extremamente significativo, levantando os braços lentamente e sorrindo como um vencedor para Danny. Tão vencedor quanto fora na “batalha” da quadra de basquete, vista em outra cena do filme. Assim, infere-se ao público que, para os nazistas modernos, a guerra entre raças e credos seria algo bastante lógico, uma questão de vencer ou perder.

Outro ponto positivo do roteiro de David McKenna é a oratória dos personagens. Uma acalorada discussão entre Derek e o namorado de sua mãe termina em um discurso convincente o suficiente para fazer inveja até mesmo aos mais respeitados sofistas gregos, mas cheio de furos na argumentação do primeiro, traços marcantes de uma ignorância consentida e defendida.

Há frases icônicas demonstrando pseudo-conhecimento, como:

“Não os conhecemos e não queremos conhecer. Eles são o inimigo.”

ou:

“Erva é coisa de negro.”

Obviamente, Derek é assim por diversos fatores elucidados durante o longa, relativos à sociedade, à família, ao fim do século XX. Cabe ao espectador entender o quanto esses fatores também estão presentes em sua vida. O rapaz é um reflexo do modo como um grupo age quando sua situação piora gradativamente. Algo não menos relacionado à filosofia (jogar a culpa nos outros é sempre tão mais simples) que à sociologia (por que não se relacionar de uma forma odiosa com o próximo?).

Até nos gestos mais simples podemos notar uma pitada de preconceito. Há um momento no filme em que o personagem Seth (Ethan Suplee) se encontra na casa de Derek. Ao comer uma porção de amendoins brancos, Seth se dá conta de um único amendoim negro junto ao restante, sendo prontamente descartado.

Claro que toda essa discussão acerca da significação de algumas situações nada seria, não fosse a primorosa atuação de Edward Norton, indicado ao Oscar por este longa. Norton soube ser violento nas cenas violentas, fraterno nas cenas fraternas e um grande orador em quase toda a película. A mudança na personalidade de Derek é súbita em vários momentos, e Norton soube acompanhar essa mudança sem erros. Furlong, por sua vez, tem uma interpretação e desleixada, agindo todo o tempo como se sua personagem estivesse constantemente chapada… Poucos são os momentos em que não aparenta raiva, e seu desempenho acaba sendo engolido pela frustração de sua própria personagem.

No final das contas, Kaye, mesmo achando que não, atinge seu objetivo. Estabelece um resultado positivíssimo, num enredo conciso, funcionando muito bem em uma relação de interdependência junto à belíssima fotografia do filme e a uma montagem que ele nem mesmo aprovou. Com escassos erros e deslizes, A Outra História Americana levanta profundos questionamentos na mente de seu público e traz à tona uma pergunta: os EUA são mesmo o país da liberdade e da igualdade? O mundo se livrou daquele estigma preconceituoso que o assolava há tanto tempo atrás? Ou será que, enquanto todos fingem não ver, o mundo continua um lugar cheio de ódio injustificado e ressentimento?