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O horror em Red Hook / Ele / A tumba | Crítica

2 Nov

ImagemSe hoje o gênero do horror e suspense engorda os bolsos de espertos produtores de Hollywood – responsáveis por intermináveis franquias do naipe de Atividade Paranormal, e coisas mais palpáveis e consagradas, como a trilogia Evil Dead -, muito disso se deve aos autores pulp do início do século XX. Enquanto a laia de Robert E. Howard (o criador de Conan, o Bárbaro) e Edgar Rice Burroughs (idealizador de Tarzan e John Carter) moldava todo um gênero próprio, que prosperaria e daria origem aos super-heróis de quadrinhos no final da década de 30, gente como H.P. Lovecraft se preocupava mais com a escrita de história de mistério, voltadas ao sobrenatural e aos temas alienígenas.

Lovecraft (1890-1937) muito se inspirou em Edgar Allan Poe – qualquer um que já tenha lido o poema O corvo é perfeitamente capaz de notar a aura de incógnita cercando a obra -, mas se distancia dele ao enveredar por um caminho muito mais sinistro e explícito em suas produções, o que o aproxima de Mary Shelley (Frankenstein) e Bram Stoker (Drácula).

No conto O horror em Red Hook, publicado pela primeira vez em janeiro de 1927, Lovecraft nos presenteia com uma narrativa cuja ambientação retira elementos góticos dos séculos XVIII e XIX e os realoca numa estrutura que em muito lembra o gênero cinematográfico blaxpoitation dos anos 70 e 80, precedendo-o a seu modo.

Sinopse: o detetive de polícia Thomas F. Malone é incumbido da tarefa de investigar estranhos acontecimentos no distrito de Red Hook após o desaparecimento de algumas pessoas na cidade. Ele descobre incertas conexões entre os sumiços, as ocorrências e o erudito Robert Suydam.

Não possuindo uma linha de diálogo sequer, e sendo narrado a partir de um alto nível de detalhamento no início, Red Hook surpreende não só pela qualidade de seu desenvolvimento, mas também pela precisão científica no que importa à organização do texto, com largo uso de expressões próprias do vocabulário da ciência. Como contraponto a isso, impõe-se a utilização de vastos conceitos religiosos, reafirmando a atmosfera sobrenatural do conto.

A quase completa antítese disso se mostra em Ele (setembro de 1926), história na qual conhecemos um poeta narrando, em primeira pessoa, sua própria busca por inspiração para escrever. A primeira sacada da obra é esse pequeno exercício de metalinguagem , valorizando o processo autoral.

O ponto de reviravolta da trama se dá quando o poeta conhece um homem de esquisita vestimenta, que o leva a uma igualmente estranha casa e lhe faz uma revelação estarrecedora.

O início da narração detém duas interessantes características: a primeira, com relação à escrita, é que a história começa in media res, isto é, “no meio da coisa”. A narrativa tem princípio em qualquer outra parte do texto e logo depois envereda rapidamente para o princípio propriamente dito. Esse recurso é utilizado à exaustão na literatura e no cinema contemporâneo.

Em seguida, destaca-se o clima de fuga da realidade proporcionado pelas atitudes do protagonista, que busca escapar de Londres, objetivando encontrar inspiração numa idealizada Nova York. Essa característica de estilo é o que diferencia Ele quase por completo de O horror em Red Hook, sendo esta uma história urbana e suja em cenário e a primeira um exemplo de limpeza -essa é impressão inicial. A quase completa diferença se explica também no estilo, no fato de que ambas as narrativas terminam desembocando na sordidez e no terror.

Lovecraft ser uma pessoa de gostos anglófilos muito influi aqui. A composição é marcadamente georgiana, dando ao texto elevado toque europeu. A rememoração do narrador-protagonista se parece com o formato das milhares de creepypastas espalhadas internet afora, embora boa parte delas receba outros recursos visuais que reforcem seu realismo. O importante aqui é vermos uma provável origem para elas.

Em verdade, Ele apenas reprisa a primeira pessoa de A tumba (1925), apresentando a perturbada personalidade de Jervas Dudley, um confesso sonhador e visionário.. Aos dez anos de idade, Jervas passou a nutrir uma ardente ambição por adentrar a tumba da família Hydes, relativamente próxima a sua casa. O jovem consegue adentrar na tumba, e a partir daí sua sanidade e sua relação com a família é posta em xeque.

Alguns pontos devem ficar claros ao leitor, se este desejar compreender mais a fundo o desenrolar do processo estrutural da trama. É possível notar, por exemplo, que o narrador fala demais sobre coisas das quais nada pode dizer. Uns podem até entender isso como uma espécie de provocação, de mistério, mas a verdade é que Lovecraft se repete e parece pouco audacioso com isso – acaba escondendo o jogo, e isso é negativo.

A relação com Plutarco – citado em certa passagem da história – é sutil, porém esclarecedora. A ética de Plutarco é baseada na ideia de paz alcançada através do controle dos impulsos. A intertextualidade se aplica perfeitamente no contexto. A sanidade do protagonista é bastante explorada, também, em alguns trechos, e o conceito se liga à ética de Plutarco de modo satisfatório durante todo o 2º ato.

Apreender o verdadeiro significado da tumba para a história é de uma importância grandiosa para o entendimento da obra. A tumba é o máximo elemento de virada na vida do narrador, o objeto que muda em definitivo seu comportamento junto à sociedade. Assim, termina por se constituir em uma representação alegórica da adolescência, com muito de sua natural curiosidade se imiscuindo à psique de Jervas após o interesse pela tumba.

O horror em Red Hook, Ele e A tumba, portanto, firmam-se como histórias nas quais – cada uma a seu modo – o medo, a curiosidade e a loucura, são analisadas a fundo. Partindo de métodos autorais diversificados e elaboração de cenários variados (nos casos acima, três microcosmos urbanos ou campestres), Lovecraft prova ser um inventivo criador e uma exímia persona literária, usando-se de referências antigas e estabelecendo novas para as gerações que viriam.

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