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O Processo (livro) | Crítica

28 Dez

“O texto é imutável. e as opiniões são muitas vezes apenas uma expressão de desespero por isso.”

De certa forma, é desespero o que se sente ao mergulhar nas páginas deste que é – como bem apontado pelo tradutor Modesto Carone – um dos maiores romances do século XX. O Processo constitui-se não somente como uma obra literária de intenções misteriosas e passíveis de interpretação, mas também se apresenta como o retrato emocional de um escritor sofrendo de constante desânimo e solidão. Então, o desespero seria, de igual forma, uma sensação da qual Franz Kafka se aproveitaria para construir sua tragicômica narrativa.

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A verdade é que Kafka (1883-1924) levou uma vida pouco movimentada e insatisfatória do ponto de vista sentimental. Formado em Direito, o autor sempre vivenciou uma conturbada relação familiar, sendo verdadeiramente criado, junto a seus irmãos, por empregados. Seu pai, Hermann Kafka, não o apoiou em sua carreira de escritor – da qual pouco êxito obteve em vida. Após a faculdade, Franz dedicou a maior parte de seu trabalho à companhia semi-estatal de seguros da Áustria-Hungria. O serviço burocrático o impeliu a presenciar e a atuar em diversas causas que certamente o inspiraram em O Processo.

Publicado pela primeira vez em 1925, sem a autorização de Kafka – que ordenou ao editor e amigo Max Brod a queima deste e de todos os outros manuscritos pouco antes de morrer -, o romance narra a estranha detenção de Josef K. e os eventos que se seguem a ela. K., um dedicado e elogiado funcionário de banco, de repente se vê cercado por tribunais precários, cartórios situados em sótãos mal ventilados, um pintor a serviço de juízes e um advogado obscuro. À medida em que K. se compromete com sua causa, a vida levada por ele se transforma em algo mais sério e incerto.

Em relação à transformação de sua vida, é possível notar, logo no início do livro, o incômodo de K. com alterações de rotina, comportamento manifestado a partir da ausência do café-da-manhã em sua cama e da invasão de seu quarto pelos agentes da detenção. Esses fatos ocorrem na mesma manhã, que ainda comporta outra súbita irrupção de privacidade: aquela posta em prática pelos vizinhos da frente, espionando os acontecimentos da pensão. Sim, K. vive em uma pensão, e, assim, compartilha espaço com outros, vizinhos de parede. Não deixa de ser curioso que, depois dos primeiros eventos, ao final do Capítulo Primeiro, o próprio K. se convida ao dormitório da senhorita Bürstner, outra moradora da pensão, a pretexto de lhe oferecer explicações acerca da ocorrência matutina. Ele também lha invade a privacidade.

Voltando ao momento da detenção, nota-se que K., a princípio, fica tão mais preocupado em entender a situação, em saciar suas urgências momentâneas, que acaba abdicando ao questionamento de sua liberdade, um repeteco da bíblica estupidez de Esaú e uma espécie de alegoria ao mundo moderno também. Um mundo no qual a humanidade busca desesperadamente compreender seus fatos, esquecendo-se de aceitá-los, entretanto. Esse detalhe pode passar desapercebido ao leitor, do mesmo modo que o público não dará pelo sumiço do inspetor: Kafka, ao apresentar os três funcionários do banco, desvia toda a atenção dada ao agente da lei para eles, com naturalidade extrema, sem que se perceba. Sem dúvida isso é resultado de uma escrita centrada no ponto de vista do protagonista. Tudo o que é narrado é proveniente das experiências do protagonista. Assim sendo, não se pode e nem se deve encarar tudo o que é narrado como expressão máxima da realidade (algo muito próximo do que ocorre no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e no longa-metragem Cisne Negro, de Darren Aronofsky). A existência de situações como o espancamento dos guardas (Capítulo Quinto) é posta em xeque se considerarmos que, além da situação ser absurda, ninguém mais senão K. viu aquilo, e este já se encontra no processo.

O espancador, uma figura dominadora, sádica, pode representar algumas das vontades de K.; trata’se de uma imagem vingativa e arrogante de uma maneira muito próxima à de K., além de possuir certa conotação sexual. Conotação sexual, aliás, é muito explícita na conduta e no ideário do rapaz. Seja em suas fracassadas e insólitas relações com mulheres – K. visita regularmente Elsa, uma amiga que só recebe visitas na cama; intenta aproximar-se da senhorita Bürstner, mulher de estranhos hábitos, associada a um igualmente estranho teatro; mantém efêmero contato com a mulher do oficial de justiça; e se engraça com Leni, a volúvel enfermeira de seu advogado. Seja em sua duvidosa amizade com Hasterer, o promotor público. Essa amizade (melhor detalhada nos Capítulos Incompletos) desperta o interesse e o cuidado de seu diretor no banco. Seria ela efeito de seus infrutíferos relacionamentos com pessoas do sexo oposto? Sabe-se, pelo menos, que tais relacionamentos muito se inspiram na própria vida de Kafka, noivo duas vezes da mesma mulher e desiludido com outros namoros.

Os temas religiosos aparecem com força no corpo do romance. Por exemplo, a ideia de K. só poder escapar do tribunal mediante a confissão remete à questão do arrependimento, na fé católica. Outrossim, o advogado e uma espécie de Deus aos olhos de Bloch, visto o domínio que exerce sobre o comerciante. Esse Deus, no entanto, é possessivo e vingativo, como aquele que aparece no Antigo Testamento. Em contrapartida, as ações de K. não fornecem qualquer indício de espiritualidade da parte dele. Todavia, ele insiste em recorrer a mulheres luxuriosas e permanecer em seu torpe pragmatismo.

Há muito mais a ser dito e discutido sobre O Processo, mas nem tudo pode ser condensado em uma crítica que já foge muito ao seu objetivo inicial: apontar erros e acertos e elucidar alguns questionamentos da obra. Bem, muita coisa foi elucidada, mas e os erros e acertos? Os acertos são vários, e os erros insignificantes frente ao resultado final. De pontual, apenas a presença de um “parágrafo enorme” que não se justifica de modo algum no meio da narração. Até lembra um pouco o capítulo de O retrato de Dorian Gray que Oscar Wilde usa inteiramente para descrever as tapeçarias, joias e decorações da casa do protagonista. De resto, não há grandes reclamações. Se a continuidade – único aspecto de caráter duvidoso do livro – incomoda ao leitor, este deve lembrar que, afinal de contas, o romance nunca foi terminado e acaba por ser um grande esboço.

Mas mesmo como esboço, a obra de Kafka se abrilhanta pela universalidade de seus temas. Uma das reflexões de K. é parafraseada a seguir: “Se a Justiça não está em repouso, o veredicto não é justo.” Não só significa muito para K., como para todos nós. “A Justiça é pintada com cores tão baças que acaba por se tornar a Caça.”

O horror em Red Hook / Ele / A tumba | Crítica

2 Nov

ImagemSe hoje o gênero do horror e suspense engorda os bolsos de espertos produtores de Hollywood – responsáveis por intermináveis franquias do naipe de Atividade Paranormal, e coisas mais palpáveis e consagradas, como a trilogia Evil Dead -, muito disso se deve aos autores pulp do início do século XX. Enquanto a laia de Robert E. Howard (o criador de Conan, o Bárbaro) e Edgar Rice Burroughs (idealizador de Tarzan e John Carter) moldava todo um gênero próprio, que prosperaria e daria origem aos super-heróis de quadrinhos no final da década de 30, gente como H.P. Lovecraft se preocupava mais com a escrita de história de mistério, voltadas ao sobrenatural e aos temas alienígenas.

Lovecraft (1890-1937) muito se inspirou em Edgar Allan Poe – qualquer um que já tenha lido o poema O corvo é perfeitamente capaz de notar a aura de incógnita cercando a obra -, mas se distancia dele ao enveredar por um caminho muito mais sinistro e explícito em suas produções, o que o aproxima de Mary Shelley (Frankenstein) e Bram Stoker (Drácula).

No conto O horror em Red Hook, publicado pela primeira vez em janeiro de 1927, Lovecraft nos presenteia com uma narrativa cuja ambientação retira elementos góticos dos séculos XVIII e XIX e os realoca numa estrutura que em muito lembra o gênero cinematográfico blaxpoitation dos anos 70 e 80, precedendo-o a seu modo.

Sinopse: o detetive de polícia Thomas F. Malone é incumbido da tarefa de investigar estranhos acontecimentos no distrito de Red Hook após o desaparecimento de algumas pessoas na cidade. Ele descobre incertas conexões entre os sumiços, as ocorrências e o erudito Robert Suydam.

Não possuindo uma linha de diálogo sequer, e sendo narrado a partir de um alto nível de detalhamento no início, Red Hook surpreende não só pela qualidade de seu desenvolvimento, mas também pela precisão científica no que importa à organização do texto, com largo uso de expressões próprias do vocabulário da ciência. Como contraponto a isso, impõe-se a utilização de vastos conceitos religiosos, reafirmando a atmosfera sobrenatural do conto.

A quase completa antítese disso se mostra em Ele (setembro de 1926), história na qual conhecemos um poeta narrando, em primeira pessoa, sua própria busca por inspiração para escrever. A primeira sacada da obra é esse pequeno exercício de metalinguagem , valorizando o processo autoral.

O ponto de reviravolta da trama se dá quando o poeta conhece um homem de esquisita vestimenta, que o leva a uma igualmente estranha casa e lhe faz uma revelação estarrecedora.

O início da narração detém duas interessantes características: a primeira, com relação à escrita, é que a história começa in media res, isto é, “no meio da coisa”. A narrativa tem princípio em qualquer outra parte do texto e logo depois envereda rapidamente para o princípio propriamente dito. Esse recurso é utilizado à exaustão na literatura e no cinema contemporâneo.

Em seguida, destaca-se o clima de fuga da realidade proporcionado pelas atitudes do protagonista, que busca escapar de Londres, objetivando encontrar inspiração numa idealizada Nova York. Essa característica de estilo é o que diferencia Ele quase por completo de O horror em Red Hook, sendo esta uma história urbana e suja em cenário e a primeira um exemplo de limpeza -essa é impressão inicial. A quase completa diferença se explica também no estilo, no fato de que ambas as narrativas terminam desembocando na sordidez e no terror.

Lovecraft ser uma pessoa de gostos anglófilos muito influi aqui. A composição é marcadamente georgiana, dando ao texto elevado toque europeu. A rememoração do narrador-protagonista se parece com o formato das milhares de creepypastas espalhadas internet afora, embora boa parte delas receba outros recursos visuais que reforcem seu realismo. O importante aqui é vermos uma provável origem para elas.

Em verdade, Ele apenas reprisa a primeira pessoa de A tumba (1925), apresentando a perturbada personalidade de Jervas Dudley, um confesso sonhador e visionário.. Aos dez anos de idade, Jervas passou a nutrir uma ardente ambição por adentrar a tumba da família Hydes, relativamente próxima a sua casa. O jovem consegue adentrar na tumba, e a partir daí sua sanidade e sua relação com a família é posta em xeque.

Alguns pontos devem ficar claros ao leitor, se este desejar compreender mais a fundo o desenrolar do processo estrutural da trama. É possível notar, por exemplo, que o narrador fala demais sobre coisas das quais nada pode dizer. Uns podem até entender isso como uma espécie de provocação, de mistério, mas a verdade é que Lovecraft se repete e parece pouco audacioso com isso – acaba escondendo o jogo, e isso é negativo.

A relação com Plutarco – citado em certa passagem da história – é sutil, porém esclarecedora. A ética de Plutarco é baseada na ideia de paz alcançada através do controle dos impulsos. A intertextualidade se aplica perfeitamente no contexto. A sanidade do protagonista é bastante explorada, também, em alguns trechos, e o conceito se liga à ética de Plutarco de modo satisfatório durante todo o 2º ato.

Apreender o verdadeiro significado da tumba para a história é de uma importância grandiosa para o entendimento da obra. A tumba é o máximo elemento de virada na vida do narrador, o objeto que muda em definitivo seu comportamento junto à sociedade. Assim, termina por se constituir em uma representação alegórica da adolescência, com muito de sua natural curiosidade se imiscuindo à psique de Jervas após o interesse pela tumba.

O horror em Red Hook, Ele e A tumba, portanto, firmam-se como histórias nas quais – cada uma a seu modo – o medo, a curiosidade e a loucura, são analisadas a fundo. Partindo de métodos autorais diversificados e elaboração de cenários variados (nos casos acima, três microcosmos urbanos ou campestres), Lovecraft prova ser um inventivo criador e uma exímia persona literária, usando-se de referências antigas e estabelecendo novas para as gerações que viriam.