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De Volta Para O Futuro | Crítica

2 Dez

ImageÉ uma tarefa bastante complicada falar sobre um filme tão simpático – e inteligente – quanto De Volta Para O Futuro, pois além dele morar no coração de todos nós, consegue ser denso o suficiente para merecer uma análise técnica longa e detalhada. Portanto, me encontro numa dúvida: não sei por onde começo essa crítica.

Vamos arriscar tentando falar primeiro sobre as qualidades técnicas do longa. A direção de Robert Zemeckis é magistral: seja nos ângulos de câmera estilosos, seja nas cenas de ação extremamente bem coordenadas (sempre possibilitando o espectador a entender tudo o que se passa em cena). Zemeckis brilha ao fazer determinadas brincadeiras com a sua direção de atores, ao colocar Michael J. Fox fazendo caretas que tornariam Marty McFly emblemático e movimentos simultâneos aos de seu pai (ver imagem), por exemplo. A trilha sonora nem se fala: composta e inserida no filme brilhantemente por Alan Silvestri, tocando nos momentos certos para que se torne inesquecível – assim como “Power Of Love” acaba se tornando um hino do amor entre Marty e Jennifer -, esta continua badalando em nossas mentes sem parar durante um longo tempo após o término do filme. A fotografia e direção de arte, sempre vívidas, possuem um grande peso (“Peso? Por acaso o campo gravitacional da Terra possui algum problema no futuro?”) na simpatia gerada pelo filme, principalmente porque sempre acentuam as cores, tornando-as vivas e fortes, além de categorizar algumas próprias para todos os personagens. Por exemplo: Marty sempre com vermelho e azul, Doc Brown sempre de branco ou cinza, George sempre com roupas em tons pastéis, etc.

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1 e 2: Marty e George McFly, agindo como se fossem sombras; 3 e 4: Goldie Wilson planejando sua carreira política e ela já em andamento.

O roteiro do filme é estrondoso. Sempre demonstrando sutileza (como os cartazes da campanha de Goldie Wilson surgindo por acaso em certas cenas – e que fazem referência a influência que Marty exerce no passado quando volta no tempo), o texto é repleto de diálogos fenomenais: sejam as conversas sobre Física entre Doc Brown e Marty, sejam as situações constrangedoras que McFly passa ao ser assediado pela versão jovem de sua mãe e ao não se adequar aos costumes de 1955. Além disso, o roteiro ainda encontra espaço para diversas referências: desde Jornada nas Estrelas a Star Wars, passando por Van Halen e Chuck Berry até chegar em Thomas Edison e Albert Einstein. Os atores transbordam talento do início ao fim da projeção: Michael J. Fox é o grande destaque, principalmente por demonstrar um carisma enorme ao ser o responsável pela grande afetividade gerada pelo seu personagem, Marty McFly. Christopher Lloyd segue o mesmo caminho de J. Fox, mas ainda encontra espaço para acrescentar diversos maneirismos as atitudes do Dr. Emmet Brown; Lea Thompson e Crispin Glover, os pais de Marty, dão outro show a parte: ela por conseguir interpretar naturalmente uma tarada garota de família, e ele por construir um perfeito CDF viciado em histórias de sci-fi, sempre fazendo gestos e expressões estranhas para um ser humano “normal”.

Mesmo com tantos pontos positivos, De Volta Para O Futuro erra – e com uma bobice: o didatismo. Em algumas cenas, os personagens precisam explicar aquilo que os acontecimentos já esclarecem, sem nenhuma função narrativa, a não ser mastigar a trama para o espectador “menos atento”. De qualquer maneira, os pontos positivos do filme são tantos que obscurecem os negativos a ponto deles parecerem não existir.

A verdadeira genialidade de Back To The Future.

Pode-se dizer que o maior motivo para De Volta Para O Futuro ter se tornado um filme tão marcante foram suas próprias – e, mais uma vez, sutis – particularidades: sejam os personagens icônicos, a trama bem trabalhada, os diálogos sensacionais, o roteiro bem amarrado… e suas detalhadas genialidades. Algumas dessas genialidades podem passar despercebidas pela maioria do público, mas se aumentar um pouco de sua atenção, poderá notá-los claramente.

– O Caso “Twin Pines”.

Pouco antes de viajar no tempo pelo DeLorean, Marty ouve Doc Brown contar que o estacionamento do shopping aonde estavam, o Twin Pines (Pinheiros Gêmeos, em tradução livre) era uma grande fazenda há certo tempo atrás. Em 1955, Marty “aterriza” em uma fazenda, e ao sair de lá atropela um de dois pinheiros que haviam sido plantados um ao lado do outro. Depois de sair da fazenda, notamos uma placa onde vemos escrito Twin Pines Farm (Fazenda Pinheiros Gêmeos). Quando Marty, já tendo mudado o passado em diversos pontos, retorna ao ano de 1985, ele vai até o estacionamento do shopping – que agora se chama “Lone Pine” (que, traduzindo, significa Pinheiro Solitário). Precisa explicar a piada?

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1: O Twin Pines Mall; 2: Marty atropelando um dos pinheiros; 3: o nome da fazenda, igual ao do shopping da linha temporal original; 4: o novo nome do shopping, baseado no que Marty fez na fazenda assim que chegou de sua “viagem”.

– A criação de um estilo musical lendário.

Lembra que, na cena do baile, o guitarrista da banda que está tocando para os alunos corta a mão, obrigando Marty a tocar uma música em seu lugar? Então, a música que Marty toca é “Johnny B. Goode”, de Chuck Berry, um dos maiores ícones do rock. Mas olhe bem para o que está escrito na bateria da banda – e o nome que o guitarrista da banda diz ao usar o telefone durante a música. Além de mostrar que McFly foi quem criou o Rock N’Roll na nova linha temporal gerada por ele, esse acontecimento serve para ilustrar as proporções que a volta indevida do rapaz no tempo causou ao curso normal da história: ele criou o rock, aumentou a auto-estima de George e melhorou a vida e o modo de ser de seus pais. Genial.

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1: o nome da banda; 2: Marvin ligando para seu primo, “Chuck”; 3: Marty cantando e tocando Johnny B. Goode; 4: Marvin colocando seu primo para ouvir a música que ele procurava.

Um clássico? Um ícone da cultura pop? Um dos mais divertidos filmes da história? Não sei qual definição dou para De Volta Para O Futuro, já que ele abrange quase todas elas.

Nota: 10/10