Tonight | Crítica

2 Nov

Tonight: Franz FerdinandSe há algo a ser reconhecido por qualquer bom apreciador de música, é o fato de que muitas bandas novas e talentosas surgiram no Reino Unido entre a década de 2000 e agora. Algumas, como o Muse, iniciaram carreira bem antes disso, mas alcançaram o estrelato apenas no  novo milênio e hoje são especialistas em colecionar façanhas – recentemente, o grupo foi eleito como a Melhor Banda do Mundo pela revista Q. Outras, como o Bloc Party, o Arctic Monkeys e o Franz Ferdinand, despontaram somente neste século. E com relação ao último nome, é gratificante reconhecer que, em três álbuns lançados, tivemos três grandes obras.

O primeiro trabalho da banda escocesa – que toma seu nome emprestado do príncipe austro-húngaro cujo assassinato foi o estopim para a 1ª Guerra Mundial – constituiu-se em um estrondoso sucesso de público e crítica; Franz Ferdinand, de 2004, conquistou o prêmio de Álbum do Ano da revista britânica NME. O segundo álbum, You Could Have It So Much Better, de 2005, repetiu a fórmula da primeira obra, mas mostrou uma notável, embora nem minimamente prejudicial, queda de qualidade.

Foi só depois de um período sabático de quatro anos que os rapazes de Glasgow retornaram para chacoalhar a cena indie com o ótimo Tonight (2009). Aqui, Alex Kapranos e cia. deixaram de lado o som marcado por guitarras, baixos e refrões viciantes, a fim de imprimir batidas mais próximas da música eletrônica, adotando uma sonoridade orgânica. A procura por renovação e inovação é tamanha, que os membros da banda chegaram inclusive a utilizar ossos humanos na percussão. Se por um lado na produção de 2005, a música robótica do Kraftwerk lhes serviu de inspiração sonora e visual, neste trabalho o dubstep e o house se mostraram muito presentes. Apesar disso, o Franz também não abandona de todo o sentimentalismo até então presente em muitas de suas músicas. O ímpeto dançante das composições também não se perde; pelo contrário, se intensifica.

Já na primeira faixa de Tonight, tomamos conhecimento dos aspectos norteadores do disco. Em Ulysses, não só a banda inicia o uso do sintetizador, como também nos apresenta a temática deste que é um álbum conceitual. Ulysses é o nome do protagonista da “história” contada, um tanto metaforicamente, através desta e de outras faixas. E qual é a história? Ulysses e seus amigos resolvem sair para curtir uma noite de excessos e situações extravagantes, e o álbum acompanha desde os preparativos da empreitada até sua realização. Trata-se de uma espécie de Se Beber, Não Case! misturado a uma estética preto-e-branco. A capa do disco, por si só, já entrega um aperitivo do que será essa noite em seu auge.

O desfecho dessa história, se há algum, naturalmente deverá se encontrar nas duas últimas faixas, Dream Again e Katherine Kiss Me. São músicas mais sentimentais e oníricas e, enquanto a primeira imprime com perfeição a atmosfera de um sonho, a segunda soa repetitiva – não exatamente por trazer de volta trechos da excelente No You Girls -, mas fecha bem o trabalho.

Turn It On é rápida, mas funciona no intuito de divertir. Send Him Away não é ruim, nem realmente boa; diminui sobremaneira o ritmo colocado pelas três primeiras faixas. Twilight Omens, a número 5, e Live Alone, a número 8, são músicas menos alegres. No caso de Live Alone, a composição é melancólica, sem ser depressiva, no entanto. Isso faz bem ao disco.

Bite Hard e What She Came For são as faixas que mais se aproximam do Franz Ferdinand de tempos atrás, mas ainda não são totalmente iguais a Michael (2004) ou You Could Have It So Much Better (do álbum homônimo). As duas possuem arranjos concisos e são agitadas de igual modo, extremamente funcionais em seu intuito.

Nada pode ser dito sobre a letra de Can’t Stop Feeling, mas seu ritmo não é empolgante, por ser desacelerado e ainda assim pretender ser dançante. E, finalmente, surge a número 10, a psicodélica Lucid Dreams e sua batida saturada de sintetizadores que explodem na cabeça do ouvinte de forma abusiva nos 4 primeiros minutos, algo ainda mais incisivo nos 4 últimos; é uma das melhores coisas deste álbum, senão a melhor.

Os 43 minutos de Tonight provam que, mesmo tendo uma base bastante característica e um público já acostumado com seu trabalho, o Franz Ferdinand pode ousar e surpreender a todos com uma peça única e eficaz, ultrapassando as barreiras do rock alternativo e beirando o experimental. É verdade que alguns pequenos deslizes foram cometidos, mas isso não atrapalha nem o andamento, nem o aproveitamento deste que já é um grande disco, um dos melhores da carreira da banda e uma pérola a ser amada por indies e não-indies.

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