A Outra História Americana | Crítica

2 Nov

A bandeira dos EUA é tida, por sua população, como um símbolo de liberdade e igualdade. Certamente a Constituição desse país sofreu uma forte influência dos ideais iluministas franceses e, tal qual a Revolução de 1789 para esse povo, a Guerra da Secessão representa para os norte-americanos um marco que divide a história do país em dois momentos, um de repressão e escravidão e outro de liberdade e progresso. Há de se perceber, no entanto, uma ligeira deturpação da qualidade de “norte-americano”. Ora, canadenses e mexicanos também são norte-americanos. Quando os estadunidenses se autoproclamam “americanos”, eles se lembram de que cubanos, haitianos, argentinos e nós, brasileiros, são, de fato, “americanos” também?

Nota-se aí uma interessante construção nacionalista, ignorando aspectos geográficos e culturais. Mas a questão não é essa; não totalmente. O patriotismo exacerbado, aliado a uma crítica situação econômica, pode gerar – e, como a história nos ensina, certamente gerará – racismo, xenofobia e homofobia. E esse é o principal tema do longa-metragem A Outra História Americana (American History X, EUA, 1998), do estreante cineasta Tony Kaye.

A história apresentada segue o estudante Daniel Vinyard (Edward Furlong, o John Connor de O Exterminador do Futuro 2), incumbido da tarefa de escrever uma redação – nomeada American History X – sobre os fatos que decorreram na prisão de seu irmão, Derek (Edward Norton, de O Ilusionista e O Incrível Hulk) e como o fato influenciou em sua própria vida. Derek – líder de uma gangue de skinheads da qual seu irmão está prestes a fazer parte -, preso pelo assassinato de dois negros, é solto no dia em que Danny recebe a tarefa. O garoto, então, logo descobrirá como seu irmão mudou na prisão e como isso mudará sua vida e a de toda a família.

Em produções sobre o nazismo, há três modos identificáveis de se tratar a história: o melodrama, geralmente denunciando o horror do Holocausto e mostrando ao mundo suas vítimas, cujo maior representante é, sem dúvida, o multi-oscarizado A lista de Schindler, de Steven Spielberg; o longa de guerra, focado nas batalhas e no absurdo do conflito armado, como O Resgate do Soldado Ryan (também de Spielberg e também vencedor de Oscar), ou Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick – apesar deste último seguir uma linha muito mais existencialista; e o suspense político, analisando situações dos bastidores da 2ª Guerra Mundial, como o intrigante Operação Valquíria, de Bryan Singer (X-Men, Superman – O Retorno). Em A Outra História Americana, somos apresentados a um drama bem mais incisivo e menos choroso, a uma guerra silenciosa e menor, que ocorre todos os dias nos subúrbios de muitos países, e a um suspense capaz de discutir política sem abandonar o cenário do combate físico. Trata-se de um uma reunião de todos esses estilos, resultando em algo nem um pouco parecido – a começar pelo tempo da ação, os dias atuais -, mas plenamente inspirado neles.

Em 118 minutos de película, Kaye – também diretor de fotografia do filme – mostra ao público como é possível aliar roteiro e imagem para a construção de uma obra audiovisual abarrotada de simbolismos e detalhes mínimos. E nesse aspecto, a montagem de Jerry Greenberg acaba se estabelecendo como um dos pontos fortes do longa, apesar de ter sido contratado para o cargo após um conturbado processo de filmagens. Sim, conturbado, pois Kaye e os produtores – incluindo aí Norton – tiveram sérias discussões sobre os rumos do filme, e as diferenças criativas quase afundaram o projeto. Kaye, inclusive, chegou a pedir ao Director’s Guild of America a retirada de seu nome dos créditos do filme. Falhou.

Mas isso, em verdade, não atrapalha o andamento da obra. Editado como uma narrativa não-linear, com uso constante de flashbacks, A Outra História Americana se destaca também pela já citada fotografia de Kaye. Quando a ação se situa no tempo presente, temos uma película em cores, algo que muda quando conhecemos o passado das personagens – as cenas de flashback são todas em preto-e-branco, denotando seu passado obscurecido, um tempo de trevas. O colorido do presente representaria, portanto, a mudança de Derek e as transformações que estão por vir. De fato, a execução de tal ideia mostra-se eficiente em seu intento, e a iniciativa de filmar todo o filme em cores para somente mais tarde converter algumas sequências ao p&b confere à obra uma homogeneidade digna. O trabalho com as câmeras, porém, passa longe da perfeição; os takes em câmera lenta proporcionam uma incômoda quebra de ritmo, alternando longas sequências de cruas e rudes ações das personagens com momentos forçosamente dramáticos. Se a intenção era reforçar a gravidade das situações, o simbolismo acaba se mostrando verdadeiramente desnecessário.

Outro desses simbolismos (dessa vez, um realmente interessante) é localizado em um estágio mais avançado da projeção, no momento do assassinato dos dois negros. Após o ato, vemos Derek se render à polícia – que chega rápido demais e em grande volume; algo inexplicável, ou, simplesmente, um vício terrível de terrível de muitos diretores – de um modo extremamente significativo, levantando os braços lentamente e sorrindo como um vencedor para Danny. Tão vencedor quanto fora na “batalha” da quadra de basquete, vista em outra cena do filme. Assim, infere-se ao público que, para os nazistas modernos, a guerra entre raças e credos seria algo bastante lógico, uma questão de vencer ou perder.

Outro ponto positivo do roteiro de David McKenna é a oratória dos personagens. Uma acalorada discussão entre Derek e o namorado de sua mãe termina em um discurso convincente o suficiente para fazer inveja até mesmo aos mais respeitados sofistas gregos, mas cheio de furos na argumentação do primeiro, traços marcantes de uma ignorância consentida e defendida.

Há frases icônicas demonstrando pseudo-conhecimento, como:

“Não os conhecemos e não queremos conhecer. Eles são o inimigo.”

ou:

“Erva é coisa de negro.”

Obviamente, Derek é assim por diversos fatores elucidados durante o longa, relativos à sociedade, à família, ao fim do século XX. Cabe ao espectador entender o quanto esses fatores também estão presentes em sua vida. O rapaz é um reflexo do modo como um grupo age quando sua situação piora gradativamente. Algo não menos relacionado à filosofia (jogar a culpa nos outros é sempre tão mais simples) que à sociologia (por que não se relacionar de uma forma odiosa com o próximo?).

Até nos gestos mais simples podemos notar uma pitada de preconceito. Há um momento no filme em que o personagem Seth (Ethan Suplee) se encontra na casa de Derek. Ao comer uma porção de amendoins brancos, Seth se dá conta de um único amendoim negro junto ao restante, sendo prontamente descartado.

Claro que toda essa discussão acerca da significação de algumas situações nada seria, não fosse a primorosa atuação de Edward Norton, indicado ao Oscar por este longa. Norton soube ser violento nas cenas violentas, fraterno nas cenas fraternas e um grande orador em quase toda a película. A mudança na personalidade de Derek é súbita em vários momentos, e Norton soube acompanhar essa mudança sem erros. Furlong, por sua vez, tem uma interpretação e desleixada, agindo todo o tempo como se sua personagem estivesse constantemente chapada… Poucos são os momentos em que não aparenta raiva, e seu desempenho acaba sendo engolido pela frustração de sua própria personagem.

No final das contas, Kaye, mesmo achando que não, atinge seu objetivo. Estabelece um resultado positivíssimo, num enredo conciso, funcionando muito bem em uma relação de interdependência junto à belíssima fotografia do filme e a uma montagem que ele nem mesmo aprovou. Com escassos erros e deslizes, A Outra História Americana levanta profundos questionamentos na mente de seu público e traz à tona uma pergunta: os EUA são mesmo o país da liberdade e da igualdade? O mundo se livrou daquele estigma preconceituoso que o assolava há tanto tempo atrás? Ou será que, enquanto todos fingem não ver, o mundo continua um lugar cheio de ódio injustificado e ressentimento?

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Uma resposta to “A Outra História Americana | Crítica”

  1. lucaspetraglia 3 de Novembro de 2012 às 4:15 #

    Reblogged this on Portal dos Cinéfilos.

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